“Estão todos convidados para vir a Mafra. Vai ser um grande Festival!”

    Entrevista ao pianista Adriano Jordão

    Depois de 15 meses de pandemia, o Festival de Música de Mafra Filipe de Sousa está de volta já este fim de semana. Com os cuidados necessários, mas com grandes programas de música clássica, organizados pela Fundação Jorge Álvares e a Câmara Municipal de Mafra. O diretor do Festival, Adriano Jordão, explica como foi a organização num ano tão difícil como este.

    Foi um ano muito difícil marcado pela pandemia e, aos poucos, o país regressa à sua normalidade, ainda que circunstancialismos por todos conhecidos. Esta edição do Festival surge, portanto, nesta conjuntura difícil, que também influenciou a programação. O que vamos ter, então?

    Nós decidimos que o Festival passa a ter, todos os anos, um parceiro privilegiado. Este ano, o parceiro escolhido foi a Embaixada de Marrocos, porque fizemos um protocolo com o Concurso Internacional de Piano de Rabat, da princesa Lalla Meryem, irmã do rei Mohammed VI de Marrocos. Esse protocolo colocou no nosso Festival vários pianistas consagrados: o pianista italiano Marco Braulin e o pianista romeno Jeffery Macsim. Ainda vinham outros, mas devido à dificuldade das viagens, pela situação que estamos a viver, tivemos de mudar.

    Aliás, não foi a única mudança…

    Não. Por exemplo, nós tínhamos planeado já no ano passado abrir com uma obra marroquina. Mas, como se sabe, o Festival foi cancelado no ano passado por causa da pandemia e foi tudo transferido para este ano. Mas, apesar de estarmos melhor, ainda não estamos bem e a falta de voos obrigou-nos a alterar o programa. Portanto, acabei por escolher para abrir esta edição uma obra do grande compositor português Joly Braga Santos. Por causa da necessidade de cumprir o distanciamento social imposto pela DGS, tivemos de mudar algumas salas e, portanto, fui obrigado a escolher repertório em que a orquestra fosse menor. E neste primeiro dia vou tocar um concerto de Mozart.

    Portanto, foram alterações muito pragmáticas que não afetaram a coerência da programação do Festival.

    Exatamente. Foram alterações muito pragmáticas. Aliás, esse concerto inaugural, este sábado, vai incluir ainda uma sinfonia de Prokofiev que se adequa aos limites físicos do espaço. E é exatamente como diz: apesar de nos termos adaptado às circunstâncias, como está a acontecer um pouco por todo o país, este é um programa musicalmente coerente, de estrutura clássica, como uma abertura portuguesa do século XX, o “Stacatto Brilhante” do Joly Braga Santos, depois um concerto de Mozart, talvez o maior de todos, o n.º 20, e depois, a encerrar, a Sinfonia Clássica, de Prokofiev.

    Este fim de semana inaugural conta ainda com um domingo muito forte, que coincide com o encerramento da Semana da Cidade, em Mafra. Vamos ter Pedro Burmester a toca no Festival.

    Sim, é verdade vamos ter um grande pianista português, o meu querido amigo Pedro Burmester, que faz um programa de recital, que vai de Bach a Chopin do repertório clássico, que me parece ser um belo encerramento deste primeiro fim-de-semana do Festival. No fim de semana a seguir, no dia 22, teremos um programa de música de câmara, que juntará a grande violoncelista portuguesa Irene Lima, a Ana Pereira, que é concertino da Orquestra Metropolitana de Lisboa, e eu próprio ao piano. Será um programa de música de câmara de Beethoven, que é composto por uma sonata de violino, uma sonata de violoncelo, e o final do trio Op. 2 n.º 1 para piano. Portanto, temos todas as razões para que o público goste deste festival.

    No dia 5 de junho o programa fala de um concerto a oito mãos. Conte-nos lá isso: é um virtuosismo difícil de equilibrar…

    [risos] É um programa muito giro, que as pessoas vão gostar muito. Vai começar com duas mãos, depois passa a quatro mãos, e a seis mãos, e termina a oito mãos. Tudo no mesmo piano. Mais do que oito é impossível [gargalhada]. Eu abro a duas mãos, depois toco a quatro mãos com o pianista Eduardo Jordão, que é meu sobrinho. A seguir, o Tiago Nunes e o António Silva substituem-nos e fazem um duo de piano e o programa termina oito mãos, que exige já grande coordenação. É um programa diferente do habitual e que espero que o público goste muito. Estão todos convidados para vir a Mafra. Vai ser um grande Festival!

    Falemos então de Marrocos, que está presente então nesta edição do Festival de Música de Mafra, Filipe de Sousa.

    Está, sim. Não tanto como gostaríamos, mas o ótimo é inimigo do bom e depois deste ano tão difícil, já é ótimo termos o Festival de novo. No domingo dia 13 vamos ter uma Tarde Marroquina, às 17h00, e aí esperemos que já haja voos. Virá o maior alaudista marroquino, o Haj Younes, que vai fazer um concerto de fusão com o nosso Pedro Jóia. Foi uma experiência muito bonita em Casablanca e que vamos repetir aqui em Mafra.

    É importante explicar ao público que foram tomadas grandes medidas para cumprir todas as recomendações da DGS e reforçar aquela mensagem importante que é “a cultura é segura”. É que isto sem público não tem graça nenhuma.

    Ah, claro. Mudámos o programa, encontrámos salas com maior capacidade, arejadas, amplas e é bom lembrar que teremos lotações limitadas a metade, para cumprir o distanciamento social. Além disso, há álcool gel para desinfetar as mãos e é obrigatório o uso de máscara durante os espetáculos. As pessoas já sabem isso, mas é importante reforçar estas mensagens. Venham que é seguro.

    Ainda assim, para garantir que todos podem assistir aos concertos programados, a Câmara Municipal de Mafra e a Fundação Jorge Álvares decidiram transmitir o Festival em streaming no Facebook.

    Acho que é uma boa decisão. Temos de ver sempre o copo meio cheio e o copo meio vazio. Isto faz parte do copo meio cheio: as transmissões online vieram para ficar. E ainda bem. Olhe, deixe-me dar aqui um exemplo pessoal que acho que faz sentido para explicar isto. O confinamento não me afetou a mim, particularmente. Eu trabalho em minha casa, confinado por natureza. Mas a verdade é que deixámos de poder ir a concertos. Portanto, eu assinei a Filarmónica de Berlim. O que quer dizer que eu me habituei a ter em minha casa, em direto e ao vivo, todas as atuações da Filarmónica de Berlim. Agora que o país, felizmente, volta ao normal, acha que eu vou desistir desta assinatura internacional? Não vou. Isto é mais uma oportunidade que as pessoas têm. Há um lado negativo que é preciso reconhecer: imagine que eu estou a pensar ir ver um determinado espetáculo. Mas na hora de sair de casa está a chover e perco a vontade. Sei que o concerto vai dar em direto, acabo por ficar. Portanto, os artistas e os programadores vão ter de encontrar uma solução para isto. Mas a vida é assim mesmo. Novas realidades convidam a novas soluções.

    Já disse que a sua vida profissional não sofreu muito com este ano de Covid-19, mas é verdade que para os artistas isto foi péssimo.

    Sim, sim, absolutamente. Na prática sofreu-se muito. A vida musical sofreu horrores. Todo o trabalho artístico. Portanto, o impacto foi brutal, quer no que toca à prática de conjunto, quer na própria dimensão pessoal dos artistas. Houve muitos, para não dizer quase todos, concertos anulados. Os freelancers, que são a maior parte dos músicos, ficaram de repente sem fontes de rendimento. E isso foi extraordinariamente grave, sem que o governo reagisse como devia. Há casos muito graves. Não falo por mim, felizmente, mas sei de casos de técnicos de som ou de imagem que, por terem ficado sem trabalho, deram baixa na Segurança Social, e, por isso, ficaram sem direito a receber os apoios do Ministério da Cultura. Isto é uma coisa sem pés nem cabeça.

    Vamos voltar ao Festival de Música de Mafra, que tem o nome do seu patrono, Filipe de Sousa. É bom não perder a noção da importância que ele teve para a música clássica em Portugal.

    Absolutamente. Ainda bem que o lembra. O Filipe de Sousa teve um papel importante na música e na investigação do património musical português. Mas também ao nível da difusão televisiva da música. Ele foi o homem que abriu o departamento de música da RTP. Foi professor e é uma figura que merece ser lembrada, até porque as gerações mais novas já não sabem quem é. Eu conheci-o pessoalmente muito bem e para nós é sempre uma referência. Mas para quem nasceu no século XXI já não sabe. Portanto, este Festival também tem essa missão.

    Para terminar, sei que já está a trabalhar na edição do próximo ano Festival…

    Verdade. Ainda é cedo para dar muitos pormenores, mas parece-me importante falar já disto, até para aguçar o apetite. E é algo caro à Fundação Jorge Álvares, que trabalha e luta pela relação afetiva de Portugal e dos portugueses com o Oriente. No próximo ano vamos ter uma edição especial do Festival de Música de Mafra Filipe de Sousa, já que vai ser dedicada a Macau. Estamos a apostar muito nisso, pelas relações da Fundação com Macau, mas também as relações do próprio Filipe de Sousa com Macau, já que visitou várias vezes o território onde fez vários amigos. Aliás, chegou a organizar em Macau uma exposição de manuscritos e edições musicais. Aliás, o Filipe de Sousa integrou o Conselho Consultivo da Fundação Jorge Álvares, a ponto de doar à Fundação a sua propriedade, em S. Miguel de Alcainça (Mafra), bem como a sua biblioteca e coleções de arte e espólio musical. 

    A sua relação com Macau também é conhecida…

    Sim, são fortíssimas. Criei o Festival de Música de Macau há 35 anos e a primeira vez que fui a Macau, ainda durante a administração portuguesa, o Governador do território era o General Garcia Leandro, hoje Presidente da Fundação Jorge Álvares. Portanto, a minha relação com esta casa e com esta causa é grande.

    Fotografia: DR Tiago Nunes