Parques de Sintra adquire salva rara do século XVI

    A Parques de Sintra adquiriu uma salva de aparato em prata dourada, peça de fabrico lisboeta, datada de 1548. A salva, que representa a aquisição artística mais representativa feita até ao momento pela empresa, destaca-se pela elevada qualidade técnica do seu trabalho (repuxado e cinzelado) e pela erudição das cenas representadas.

    A peça saiu de Portugal na sequência da morte de D. Fernando II, em 1885, e fez parte do conjunto de objetos herdados por uma filha do monarca, D. Antónia, infanta de Portugal e princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, tendo sido então enviada para a Alemanha. Reapareceu em 2012 num leilão em Londres e foi comprada por um antiquário português a quem a Parques de Sintra agora a adquiriu, estando para breve a sua apresentação ao público.

    A salva integrou a afamada coleção de D. Fernando II que desde cedo se interessou pela ourivesaria antiga portuguesa, tendo reunido no seu
    gabinete de trabalho do Palácio das Necessidades um dos maiores conjuntos conhecidos. O rei chegou mesmo a elaborar um inventário manuscrito das peças que possuía, com apreciações estéticas e informações quanto à proveniência de alguns objetos.

    Doado ao Palácio Nacional da Pena por descendentes da condessa d’Edla, segunda mulher do monarca, aquele documento encontra-se a ser estudado com vista à sua publicação.

    Com a morte de D. Fernando, em 1885, e na sequência das partilhas efetuadas pelos seus herdeiros, a coleção foi dividida. Um lote significativo ficou na posse da família real portuguesa e, anos após a implantação da república, passou a integrar as coleções do Palácio Nacional da Ajuda, com algumas peças a obterem a classificação de “Tesouro Nacional”.

    Peça única no contexto da produção quinhentista portuguesa

    Um estudo recentemente efetuado revelou a provável natureza nupcial da encomenda desta salva, onde sobressaem quatro medalhões (tondi), à maneira da melhor escultura do Renascimento italiano, dois com humanos (simbolizando os noivos) e os outros dois com deuses, apresentados como o exemplo a seguir: Hermes (deus mensageiro e pastor dos homens) e Afrodite (deusa do amor).

    A utilização do par divino Hermes-Afrodite e o restante programa simbólico, associada à excelência da execução, fazem desta peça um caso único no contexto da produção quinhentista portuguesa, da qual subsistem poucos exemplares.

    Tal como sucedeu com outras peças daquele período, no início do século XVIII foi acrescentado um pé alto a esta salva, reflexo da valorização e apreço que já então exercia. Procurando manter a integridade do objeto, a adaptação foi feita através de um sistema de roscas que unem o pé ao elemento central armoriado (armas episcopais), sendo removido com facilidade.

    A peça vai enriquecer o acervo do Palácio Nacional da Pena, no momento em que se assinalam os 200 anos do nascimento do seu edificador.