Fernando Morais Gomes | Todo o Tempo é composto de mudança

Estou triste. Partiu José Mário Branco, e com ele um pouco de mim também parte, como inexorável e cruelmente vão partindo muitos daqueles que anunciaram a madrugada redentora de Abril, e hoje ainda nos incentivavam relembrando só ser derrotado quem desiste de lutar.

Esta notícia remeteu-me para esse tempo hoje a sépia de felicidade e de orgasmo colectivo duma geração que sonhou, e lutou. Escutando-o, agora, recordo emocionado aquela  longínqua quinta-feira de Abril em que não houve aulas, e o “ponto” de Física foi adiado por causa duns militares estacionados no Terreiro do Paço. O meu avô telefonou a aconselhar que não saíssemos de casa, chuviscava, em dia cinzento, a televisão, silenciada, passou um episódio do Daktari. Contente por não haver “ponto”, aproveitei e fui ao barbeiro, onde corriam boatos sobre o sucedido, um golpe de Estado, asseverava o Taborda. Aos catorze anos, ignorava o que fosse tal, mas um dia sem aulas era motivo de festa.

No dia seguinte, achei a escola agitada. Acossado, o porteiro do D. Pedro V fora preso, informador duma tal PIDE, anormalmente, o Miguel, neto do Marcelo Caetano, não apareceu, o avô viajara para a Madeira na véspera. No sábado seguinte, depois duma avalanche de acontecimentos, e debaixo de chuva miudinha, subi ao Carmo, onde soldados com cravos nas armas e pendurados em blindados tiravam fotos com os populares.

Lisboa, cinzenta e molhada, exultava de alegria. Na estátua do Rossio, guedelhudos invectivavam os transeuntes, apelando à sua prisão, agentes da PIDE, denunciavam, levando à sua detenção por populares acirrados, um tal Saldanha Sanches, de megafone na mão, clamava contra os traidores fascistas. Em poucos dias, tudo mudou. O “careca megalítico”, de História, até ali sempre sorumbático, mostrava-se simpático e adepto da nova situação, opositor silenciado durante anos, rejubilava, receoso, o professor de Moral, esse, temia a anarquia. Embriagado pelas notícias da liberdade que de todo o lado choviam, animado por canções de protesto nunca antes escutadas, aos quinze anos, feitos entretanto, descobri mundos escondidos, os sons de José Mário Branco, do Zeca, do padre Fanhais, de Luís Cília e Adriano Correia de Oliveira, na sala de alunos, manifestos policopiados e jornais de parede diariamente apelavam a RGA’s, onde se discutia tudo em acalorados plenários.

Nas semanas seguintes, o país transfigurou-se, a escola entrou em ebulição, os partidos dividiram as opiniões, os plenários foram sendo organizados, a democracia gatinhou, vendo os jovens a tornarem-se homens. Nada poderia deter a força indómita da geração da liberdade, prometendo escola para todos, a servidão enterrada, e um futuro a despontar por culpa duma manhã de Abril, em que para gáudio da turma não houve “ponto” de Física.

Passada a embriaguez desses dias límpidos, acreditei que para sempre haveria de viver num país livre, qualificado, progressivo, de baby boomers com vinte anos de atraso, mas a tempo ainda de apanhar o comboio.

O futuro era azul cor de mar e verde melancia, só coisas boas poderiam vir, depois de anos de silêncio e mudanças bruscas. Foram tempos gloriosos. Comunicados policopiados, pichagem de paredes, oportunos e revolucionários “copos” no Bolero ou no Jamaica, para tudo acabar em olheiras no reconfortante Cacau da Ribeira.

José Mário Branco

Portugal mudou muito, entretanto, hoje já não há slows dançados nas garagens dos amigos ao som do Hotel Califórnia. Uma utópica alegria de rasgar caminhos nos uniu, e, apesar de madura, essa recordação sobrevive ainda, na nostalgia de amigos de Alex, a contas hoje com a tensão arterial ou com a próstata.Coexistiam Zeca, Pablo Neruda ou os Fisher-Z, perdidos nos esconsos das garagens, onde após lânguidos slows se prometiam amores eternos, e o nirvana do Shangri-La socialista.

Foi no velho Hot Club que apanhei as primeiras “cardinas”, chamando princesa a uma desdentada, que por vinte escudos prometia felicidade à porta do Fontória. A vida era marcada pelos bares: o Archote, o Whispers, o Bolero, mais tarde o Jamaica, o Bora-Bora e o Charlie Brown, mais burgueses o Ad Lib ou os Stones, atrevidos, a Cova da Onça e o Pipodrom junto ao Coliseu, onde por uma moeda de vinte cinco escudos se espreitava pelo óculo a Olga de Jurídicas, fazendo streaptease para pagar os estudos. Todos os rapazes da turma lá foram várias vezes, esbugalhando os olhos ante a visão celeste do corpo alvo da hoje ilustre advogada em Portimão.

Os anos passaram, a nosso modo respondemos à chamada do tempo, de sangue na guelra para as causas generosas, razoavelmente exigindo os impossíveis, pois só salvando o mundo nos poderíamos salvar.

Salvou-se a memória, o orgulho de ter tentado, a certeza de não ter desistido. Hoje, como ontem, atrás de tempo, tempo vem, e todo o tempo é, e será sempre, composto de mudança. E José Mário Branco foi um arauto dessa mudança, dos anos sessenta até hoje.

Até sempre, Zé Mário!

Fernando Morais Gomes,
Advogado. Fundador da Alagamares – Associação Cultural

[Artigo de Opinião publicado no blogue reinodeklingsor e no Sintra Notícias]