Rui Frade Ribeiro | “Não me pagam para me ralar”

(...) "Se ninguém se importa, porque há-de ser o cantoneiro que vai fazer a recolha que tem que se preocupar?"

Hoje, perto da minha residência uma viatura de recolha de RSU fazia a recolha num supermercado Pingo Doce. Quando passei junto à viatura o lixiviado corria para o chão e, bem à vista dos funcionários da CMO, tirei uma fotografia.

Confesso que quando o fiz foi a acreditar que, como tinha fotografado a cena, eles deixassem o chão limpo antes de irem embora.

Quando voltei, estavam lá as poças de lixiviado, e os ratos do ar, também conhecidos por pombos, alegremente a fazer um repasto!

Vou tentar partilhar convosco o meu raciocínio.

Os funcionários municipais terão pensado que se o camião de recolha não está em condições porque deixa cair o lixiviado, o problema não é deles é do colega da oficina. Depois o raciocínio que eu “adoro” que é mais ou menos este: “Não me pagam para me ralar”.

Discordo.

“Não me pagam para me ralar”

Se não querem cumprir de forma adequada as tarefas pelas quais recebem o salário, não me parece correto que baste fazer metade, ou um terço. Quem achar que ganha pouco para a quantidade e qualidade de trabalho que com ele contratualizaram, resta-lhe uma de duas saídas: convencer a entidade patronal a pagar mais ou despedir-se e ir trabalhar para quem lhe pague mais.

No caso da função pública ainda me parece mais grave. É dos impostos que pago que aparece o dinheiro dos vencimentos para os funcionários públicos!

Mas voltemos um pouco atrás e acrescentemos mais alguns cenários.

Eu que presentemente sou professor numa escola privada, poderia achar que o meu trabalho não é suficientemente bem pago e então usando o mesmo raciocínio dava só metade da matéria, ou dava aulas só a metade dos alunos de cada turma…

Pela mesma linha de raciocínio ainda se pode concluir que os administradores da CGD consideram pouco as centenas de milhar de euros auferidas e, portanto, não têm que garantir que os Berardos desta vida tenham direito a empréstimos apenas com garantias reais…

São rebuscados e desproporcionados os argumentos aduzidos?

“Quando voltei, estavam lá as poças de lixiviado, e os ratos do ar, também conhecidos por pombos, alegremente a fazer um repasto!

Pois, infelizmente o nosso problema é sempre o maior e o mais importante, aos outros exigimos uma lisura e uma linearidade comportamental que muitas vezes não estamos disponíveis para ter.

Não se pense que esta conversa toda é anti funcionário público ou uma quezília empolada com funcionários camarários da higiene urbana.

Tenho todo o respeito do mundo pela atividade em causa e sei que não é uma tarefa fácil se for bem feita, com zelo e amor pela camisola.

Mas hoje a maioria acha que não importa fazer bem. Ninguém repara. Ninguém aplaude. Não se ganha mais por isso.

Esse espírito cria-se verticalmente. As chefias intermédias, os chefes de divisão e de departamento têm que valorizar e avaliar o que é bem feito e o que não é. O Vereador do Ambiente e o Presidente da Câmara como topo da pirâmide, têm que saber criar condições para passar essa responsabilidade do fazer bem até ao mais humilde funcionário dessa cadeia de comando!

E, no meu ponto de vista, é aqui que tudo falha. Se ninguém se importa, porque há-de ser o cantoneiro que vai fazer a recolha que tem que se preocupar?

Somos hoje imensamente exigentes com os outros mas sistematicamente nos esquecemos de parar um pouco para avaliarmos a nossa prestação.

Resta-me esperar que, talvez para a próxima semana, aqui passe o lava ruas. Entretanto o cheiro já terá disfarçado…

Rui Frade Ribeiro