José do Nascimento | José Alfredo da Costa Azevedo

Um dos melhores amigos do meu pai, José do Nascimento Júnior, foi indubitavelmente o José Alfredo da Costa Azevedo, uma amizade que começou nos bancos de escola e se cimentou ao longo dos anos, não só nas andanças por Sintra como de férias na Ericeira, vila em que, qualquer dos dois, encontrava grandes afinidades.

Foi com o José Alfredo, de entre todos os amigos de meu pai, aquele que com mais privei e por várias de ordens de razão. Ao “correr da pena” recordo algumas: Embora em épocas bem distantes, ambos tivemos incursões no teatro, na Sociedade União Sintrense, colectividade onde a determinada altura fui Secretário da Mesa da Assembleia Geral de que o José Alfredo era presidente, cargo a que mais tarde lhe sucedi. Também tivemos o gosto em comum pela História da vila de Sintra e por algumas histórias das suas gentes, a evolução do modo de viver dos sintrenses.

Nesta área, o José Alfredo, apesar de autodidata, foi investigador de mérito, enquanto eu nunca passei de curioso, curiosidade essa que era semanalmente alimentada com a leitura das crónicas do José Alfredo no Jornal de Sintra, crónicas essas que mais tarde começaram a ser editadas em livro e, é desse legado que sumariamente se aborda em seguida:

Desenho e capa de José Alfredo da Costa Azevedo

A primeira colectânea de crónicas publicadas no Jornal de Sintra, teve o título de capa de A Vila Velha (Ronda pelo Passado), título que o autor escolheu após várias hesitações, porque além da ronda pelo bairro sintrense, tem três capítulos não relacionados, especificamente, com a Vila Velha, capítulos esses que versam as “Thólei” do Vale de S. Martinho, Uma Imagem em Bolandas (a imagem de S. Pedro, hoje na igreja daquele bairro depois de ter andado de um lado para o outro) e Uma Joia Que Não se Perdeu que mais não é que velha porta da demolida capela de S. Sebastião – onde é hoje o edifício dos Paços do Concelho – porta essa que é hoje uma janela do Casal de S. Roque na rua D. João de Castro, mais conhecida por estrada do Caracol, mas como o próprio autor confessou, “(…) são coisas que não deixam de ser velharias sintrenses”, logo bem adequadas à sua Ronda pelo Passado da Vila Velha, publicado em 1978. As crónicas reunidas nesta primeira publicação do autor, não se prende muito com a geografia do bairro, mas são essencialmente memórias, onde muitas das suas gentes são recordadas, e onde gentes há historias, as que o José Alfredo recorda, são pequenos tesouros.

Curiosa foi a dedicatória que o José Alfredo escreveu no exemplar que ofereceu a meu pai:

Para o Zé Nascimento, amigo velho, e companheiro de lides “tauromáticas”, com um abraço do José Alfredo.

Não sendo nenhum deles especial aficionado e o termo tauromáticas a aparecer entre aspas, subentende-se que as touradas eram outras.

Em 1980, a parceria José Alfredo e a Câmara Municipal de Sintra, iniciam o ciclo das Velharias de Sintra, com três volumes, o primeiro com capítulos como “A Peninha e a Capela de S. Saturnino, O Convento dos Capuchos e Penha Verde”, entre outros temas, e aqui a veia historiadora do autor, tem bem mais realce que no primeiro volume publicado que viveu muito de memórias pessoais.

Aguarela de José Alfredo da Costa Azevedo

No segundo volume, o José Alfredo volta aos bairros de Sintra e todo ele é dedicado à Estefânea, para no terceiro volume o dedicar inteiramente às queijadas, tema que, confessa José Alfredo:

(…) “também o velho amigo Chico Neves, actual proprietário da “Queijadaria Sapa”, que sempre esteve na família, pensando nas minhas Velharias de Sintra, me recomendou quando eu passava à sua porta, ali na Volta do Duche: “Não te esqueças das queijadas! (…)”

Em 1982, sai do prelo o volume IV das Velharias que se inicia com um tema que marcou a vida sintrense do século XVIII, o Terramoto de 1755, onde José Alfredo, além de histórias adjacentes ao sismo, analisa os estragos provocados pelo sismo nas diversas freguesias do concelho, que terá atingido o grau IX na escala de Mercalli em Almargem do Bispo, Terrugem e Colares, mas em Belas terá ficado no grau VII. Neste mesmo volume, entre outras curiosidades, dir-se-ia preciosidades, poderemos visitar Monserrate e o Museu de Odrinhas.

Em 1984 sai o volume V das Velharias de Sintra e marca o regresso aos bairros com S. Pedro de Sintra no centro das atenções, mas também visita o Convento da Trindade, a Capela de S. Lázaro e a Gafaria, e dá-nos a beber a água das fontes da Sabuga e Pipa.

É de 1987 o último volume das velharias, com a Praia das Maçãs em destaque, uma visita a Casal de Pianos e as suas memórias da Sociedade União Sintrense, que bem-querida lhe era. O volume termina com a curiosa Torre da Vila que fez parte de uma antiga cadeia comarcã.

Busto de José Alfredo da Costa Azevedo

Postumamente a Câmara Municipal de Sintra resolveu reeditar o legado escrito de José Alfredo e faz sair entre 1997 e 1998 seis volumes, com as crónicas dispostas por grandes temas e não por ordem cronológica como foram escritas, este o critério das edições anteriores. Assim surge o primeiro volume com o título de capa Bairros de Sintra I, com Vila-Velha, Estefânea e S. Pedro de Sintra englobados no mesmo tomo. Os restantes títulos de capa são Recantos e Espaços II, Litoral e Planície Saloia III, Apontamentos Vários IV, Memórias do Tempo V, para terminar com dois “postais” que não estiveram nas Velharias que tiveram o título de Postais da Vila Velha e de Gigarós.

José Alfredo não nos deixou só palavras escritas, foi também um aguarelista de mérito onde retratava essencialmente recantos da sua Sintra e da Ericeira e tem um vasto espólio no campo do desenho a sépia e tinta da china, de que é exemplo a capa de Vila Velha (Ronda pelo Passado).

O José Alfredo deixou-nos em 1991. O meu pai, um mês mais novo, normalmente reservado no capítulo das emoções chegou a deixar escapar um lamento: Agora só resto eu! – Sobreviveu ao amigo de eleição mais nove anos e as cinzas de ambos repousam em duas colinas fronteiras na Serra de Sintra.

José do Nascimento