José do Nascimento | As Valências do Parque da Liberdade

    (...) "Um qualquer responsável iluminado julgou que ali era o local ideal para se colocar o pavilhão que representou o Japão na EXPO 98, como se não houvesse, no próprio Parque de Valenças, locais bem mais apropriados e a evitar a destruição do recinto desportivo."

    O termo “valências” faz lembrar Valenças como era mais conhecido o actual Parque da Liberdade em Sintra e que durante muitos anos teve como verdadeiro nome o de tal dr. António muito conhecido em determinada época pelas funções que desempenhou e pela eloquência dos seus discursos, tendo ficado célebre um em que afirmou:

    ‘ – “O Santa Maria está connosco. Obrigado Portugueses!” – Assim mesmo, sem mais nada. Profundo!

    O seu apelido também está ligado ao nome que se dá a uma espátula em borracha e serve para rapar totalmente a massa dos bolos ou o que restou no tacho… rapa tudo!

    O Parque de Valeças, é o nome que automaticamente me ocorre sempre que necessito de referir o espaço. Desde logo, devido ao romantismo que ali se imana, até épocas ainda recentes, convidou a que os jovens namorados fizessem ali o seu ponto de encontro.

    Quando comecei a frequentar o espaço, não era nas namoradas que pensava, mas sim nos baloiços do parque infantil que na altura se localizava perto do palácio do Gandarinha, hoje muitas vezes referido e não pelas melhores razões. O meu irmão mais velho, então já com seis anos, teve permissão para começar a experimentar a patinagem, enquanto que eu, dois anos mais novo, tinha que me contentar com o balançar do tambalalão, sonhando também ser “grande” para me iniciar no fascínio da patinagem supervisionada pela Mirita e pelo velho Alfredo o “Pau Preto”.

    A minha primeira experiência no ringue dr. Mário Ferreira Lima deu-se aos seis anos e no primeiro dia, a minha zona almofadada do corpo sentiu-se muito maltratada. Rapidamente as coisas melhoraram e comecei também a ser considerado “grande”, estatuto que se conseguia quando já não se caía.

    Com idade para isso, o meu irmão, juntamente com amigos da mesma idade, entraram para os quadros do Hockey Club de Sintra, no primeiro escalão de formação que na altura existia, enquanto que eu me divertia a vê-los treinar e jogar aos domingos de manhã. Com sorte, nesse mesmo dia à tarde, conseguia assistir aos grandes jogos da equipa de seniores no meio da multidão que enchia as bancadas, chegando-se a trepar às árvores para se assistir às partidas. Adorava participar como espectador, mas não me lembro de alguma vez ter querido praticar a modalidade, mas aos 12 anos recebo um convite inesperado, a equipa do meu irmão tinha ficado sem guarda-redes, e os restantes jogadores terão achado que eu era suficientemente maluco para colmatar a falha e assim a equipa pudesse disputar o campeonato. Realmente, na época, era preciso ter um certo grau de loucura para se ser guarda-redes de hóquei, basta dizer que na altura, além das caneleiras e luvas indispensáveis, o único equipamento de proteção existente apenas protegia a virilidade do defensor das balizas. Máscaras e proteções de peito eram ainda miragens. Além da dose de loucura, era ainda necessária coragem, porque aquelas bolas quando acertam em locais indevidos, doem que se fartam. Antes que me chamassem “maricas” ou “cobardolas”, aceitei.

    A minha carreira nem sempre foi muito linear, terminou aos 24 anos de forma abrupta e motivada por dois ou três indivíduos com responsabilidades no clube, mas porque já não podem exercer o direito ao contraditório, não menciono quem, nem os motivos do meu abandono da modalidade.

    A convite de velhos companheiros, regressei 12 anos depois para a classe de veteranos e nunca o hóquei me deu tanto prazer, não só por poder jogar, mas principalmente pelo convívio. Não havendo “obrigação” de ganhar o gosto de competir ia fazendo com que ganhássemos a maioria dos jogos. Foram dois anos que me deixaram saudades.

    Voltando ao Parque de Valenças, além dos baloiços, patinagem e namoros, havia outra actividade lúdica, gerida pela sra. Maria do bar. Uma mesa de matraquilhos! Não era coisa onde me pudesse destacar, mas entretinha-me a admirar os craques que faziam época de Inverno na Adega das Caves na Vila e que na época do Verão se juntavam no parque de Valenças… Grandes jogos!

    A par, a esplanada do bar da sra. Maria, era a plateia ideal para se apreciar os jogos de ténis que no recinto em pó de tijolo, se permitia a sua prática. Era uma actividade de amadores essencialmente sintrenses ou com casa de férias em Sintra, e assistia-se a excelentes partidas, algumas já de elevado nível. Foi naquele court que bati as minhas primeiras bolas, numa modalidade que durante muitos anos pratiquei em formato lúdico. Mais tarde o piso passou a ser sintético, para ainda mais tarde se destruir todo o recinto. Um qualquer responsável iluminado julgou que ali era o local ideal para se colocar o pavilhão que representou o Japão na EXPO 98, como se não houvesse, no próprio Parque de Valenças, locais bem mais apropriados e a evitar a destruição do recinto desportivo. É claro que a minha opinião pode ser considerada pouco iluminada, mas o que se constata, o que está lá, é que hoje, não existe court, mas existe um feio mamarracho sem qualquer serventia e a agredir o romantismo do Parque de Valenças.

    (…) “Um qualquer responsável iluminado julgou que ali era o local ideal para se colocar o pavilhão que representou o Japão na EXPO 98, como se não houvesse, no próprio Parque de Valenças, locais bem mais apropriados e a evitar a destruição do recinto desportivo.” — José do Nascimento

    As diversas fontes do parque, além do agradável sussurro das águas, emprestavam uma especial frescura ao local. Hoje quase todas secaram ou foram propositadamente secas. Em duas dessas fontes ainda se podem ler dois poemas gravados na pedra, um de Oliva Guerra, que diz:

    “Oh Sintra, cujas fontes rezam / A oração perpétua das distâncias…”

    As fontes do Parque de Valenças já nada rezam.  Um outro, de Nunes Claro, reza no final:

    … és um poeta e nunca o viste bem!

    As águas das fontes do Parque de Valenças, já não estão lá a lembrar-nos que poderemos ser eternos poetas.

    Hoje o Parque de Valenças é uma sombra do que foi, já não hóquei, nem matraquilhos, os namorados vão preferindo outros locais e o ténis foi expulso. Ainda bem que fui a tempo de experimentar todas as valências do Parque de Valenças.

    Termino esta já longa crónica com a confissão de um crime que decerto já prescreveu. Junto a todos os portões do parque, existe uma tabuleta a avisar:

    “É PROIBIDO TOCAR NAS FLORES E PLANTAS”

    Eu pecador confesso que de um loureiro perto do portão das Murtas, ao qual, de quando em quando, lhe arrancava uma ou duas folhas para temperarem as minhas aventuras culinárias. Esse loureiro foi liminarmente arrancado para ser substituído por nada.

    Existem outros loureiros, mas eram as folhas daquele que faziam sorrir os meus bifes do acém.

    José do Nascimento

    (…) “Hoje o Parque de Valenças é uma sombra do que foi, já não hóquei, nem matraquilhos, os namorados vão preferindo outros locais e o ténis foi expulso. Ainda bem que fui a tempo de experimentar todas as valências do Parque de Valenças” — José do Nascimento