OPINIÃO: Carlos Vieira

O mundo olha para o Médio Oriente como se estivesse a ver um filme de ação num ecrãn distante. Mas a verdade é que as explosões no Irão, intensificadas por este eixo de tensão global, ecoam muito mais perto do que imaginamos: ecoam diretamente na mangueira do posto de combustível onde paramos todas as semanas.

Diz-se que a economia é feita de números frios, mas eu decidi, por sugestão familiar, fazer as minha próprias contas. Quis perceber quanto me custa, pessoalmente, esta escalada de violência. O resultado é um choque de realidade.

Se olharmos para Portugal a 27 de abril de 2026, os números não mentem. Fiz o exercício para quem, como eu, utiliza dois depósitos de 50 litros por mês.

Em fevereiro de 2015, encher esses mesmos 100 litros de gasóleo custava cerca de 165,90€.

Hoje, como preço médio a bater nos 2,167€/l, a fatura saltou para 216,70€.

Estamos a falar de um aumento mensal de 50,80 € apenas no combustível. Num ano, são mais de 600€ que evaporam. Este valor não é apenas um “ajuste de mercado”; é dinheiro que deixa de ir para a alimentação, para a educação dos filhos ou para o lazer, para servir de “imposto de guerra” involuntário numa disputa que não pedimos.

E este é o único cálculo que consigo isolar com precisão. É impossível somar, para já, o aumento invisível no preço do pão que chega à padaria, dos legumes que viajam em camiões ou dos serviços que dependem da energia. O ataque ao Irão e o bloqueio de vias marítimas vitais são, na prática, um assalto ao orçamento das famílias portuguesas, europeias e mundiais.

Perante isto, a minha indignação deixou de ser apenas teórica. Tomei uma decisão: vou emitir duas faturas com o valor exato deste aumento e enviá-las diretamente aos principais responsáveis por este tabuleiro de xadrez: Donald Tramp e Benjamin Netanyahu.

Envio para os dois por uma questão de pragmatismo. Como não confio em nenhum deles, tenho a certeza absoluta de que o pagamento nunca me chegará às mãos. Mas o gesto é o meu manifesto. Se a estratégia política deles passa por inflamar o Golfo Pérsico, a minha resposta de cidadão é mostrar-lhes que sou eu, e somos todos nós, quem está a financiar as suas decisões.

Agora, imaginem se todos fizéssemos o mesmo. Imaginem as caixas de correio da Casa Branca e do Knesset inundadas com milhões de faturas de cidadãos comuns. De Sintra a Castelo de Paiva, de Paris a Berlim. Talvez, ao verem o custo real estampado no papel de quem trabalha, percebessem que a sua “grande estratégia” é, na verdade, uma conta insuportável que o povo já não consegue pagar.

Enquanto o cheque não aparece, resta-me o depósito mais vazio e a certeza de que, nesta guerra de egos e mísseis, o alvo atingido é sempre o nosso bolso.

Carlos Vieira,
Cidadão atento que faz contas à Vida