“Oficina do Futuro: O PS perante o desafio da clareza estratégica”

    OPINIÃO: Carlos Vieira, Coordenador da Secção de Sintra do PS

    O recente Congresso de Viseu deixou um diagnóstico claro, ecoando a moção de José Luís Carneiro: o país enfrenta uma bipolarização crescente entre uma direita radicalizada e um PS que se afirma como a “casa comum” dos democratas e progressistas. Perante uma AD que tenta equilibrar-se entre a governação com o Chega e o condicionamento do PS, não podemos cair no erro de tentar construir pontes com quem apenas procura a guerra. O caminho do PS tem de ser o seu, alicerçado em provas dadas e novas propostas.

    Para transformar a economia, não precisamos de inventar a roda, mas de potenciar as três políticas estruturantes das últimas décadas: a Educação, as Renováveis e o Digital. O objetivo agora é lançar uma Política Industrial Verde que utilize incentivos fiscais e financeiros para atrair investimento em I&D+I. Mas para que este desígnio se concretize, o partido deve focar-se em opções estratégicas claras.

    Regionalização e Resiliência

    A defesa das Regiões Administrativas, com legitimidade democrática e autonomia, é uma afirmação corajosa. As catástrofes recentes demonstraram que a centralização falhou na resposta às populações. A regionalização, articulada com os Contratos de Desenvolvimento Territorial, é o passo necessário para uma governação de proximidade.

    Esta proximidade é também vital na gestão de um ativo de soberania: a Água. Embora o inverno rigoroso tenha afastado o fantasma da seca da primeira página dos jornais, a escassez voltará. O PS precisa de medidas concretas, como o investimento sério na dessalinização. Crises – sejam pandémicas, bélicas ou climáticas — são a nova norma; a prevenção não pode ser um adereço programático.

    Energia e Economia Circular

    Portugal é líder em renováveis, mas essa liderança tem de se traduzir em soberania energética e na redução real de custos para famílias e empresas. Paralelamente, na economia circular, é tempo de abandonar eufemismos. A gestão de resíduos, especialmente nas áreas metropolitanas, exige pragmatismo. A moção acerta ao falar em “valorização energética”; na prática, isto significa apostar na queima de resíduos com recuperação de energia, sem medos ideológicos.

    O Estado como Parceiro, não como Entrave

    Nas empresas, o segredo do sucesso resume-se a três pilares: estabilidade, previsibilidade fiscal e desburocratização. O combate à evasão fiscal, por sua vez, deve assentar numa redução da carga fiscal acompanhada de uma fiscalização mais rigorosa e legitimada.

    Na Habitação, a moção reconhece a necessidade de aumentar o parque público. Contudo, sejamos realistas: o Estado não é um construtor eficiente. A solução passa obrigatoriamente por parcerias estratégicas para a aquisição e reabilitação junto do setor privado. É a única via para responder à pressão urbana em tempo útil.

    Um SNS focado no Cidadão

    Por fim, o SNS. O compromisso socialista com a saúde pública é inabalável, mas a visão deve evoluir. O cidadão não privilegia a natureza jurídica do prestador; privilegia a eficácia e a prontidão do cuidado. Onde o setor privado tem capacidade instalada e o público carece dela, o aprofundamento das parcerias não é uma cedência ideológica, é um imperativo de saúde pública.

    O PS tem na sua moção o esqueleto de um projeto vencedor. Falta agora o músculo da execução e a coragem de assumir que o futuro se constrói com pragmatismo e menos amarras ao passado.

    Carlos Vieira,
    Coordenador da Secção de Sintra do PS