Há momentos na vida coletiva em que o tempo muda. Não se trata de um simples virar de página, mas de uma alteração profunda na forma como interpretamos a realidade que nos rodeia. Em política, reconhecer esse instante é um dos testes mais difíceis, sobretudo para quem permaneceu muitos anos no exercício do poder. O hábito cria rotinas, solidifica certezas e sustenta a ideia de que o mundo continuará a funcionar da mesma forma. Até ao dia em que essa perceção deixa de corresponder ao que está diante de nós.

Sintra vive hoje esse momento. A derrota do Partido Socialista nas eleições de 12 de outubro não significou apenas uma alternância na liderança municipal. Representou o final de um ciclo de 12 anos que moldou prioridades, equipas e uma narrativa própria de governação. A democracia funciona pela alternância e essa alternância é saudável. O que não é tão simples, embora seja profundamente humano, é perceber que o tempo mudou e que os parâmetros que nos guiavam deixaram de ser os mesmos.

O que se observou na última reunião de Câmara, a primeira pública, demonstra bem essa dificuldade. O PS agiu como se o presente fosse ainda uma continuação natural do passado, como se a legitimidade acumulada pudesse substituir a necessidade de interpretar o resultado eleitoral. Não se trata de avaliar competências individuais. Trata-se antes da ausência de uma reflexão coletiva capaz de enquadrar a derrota e os sinais que ela transporta.

A história oferece um paralelo que não deve ser ignorado. Em 12 de dezembro de 2001, após oito anos de liderança de Edite Estrela, o PS perdeu a Câmara por uma margem tão curta que muitos consideraram o desfecho um mero acidente. Mas não o foi. Era o final de um ciclo político. O partido demorou a aceitar essa evidência e não produziu, como teria sido necessário, uma reflexão honesta sobre as razões dessa perda. O resultado desse impasse foi claro. Doze anos fora da gestão do concelho, distante de um eleitorado que entretanto evoluíra de forma mais rápida do que a sua capacidade de compreender essa mudança.

Hoje, o risco de repetir este padrão é evidente. O ciclo iniciado em 2013 terminou e esse facto precisa de ser encarado com naturalidade democrática e com sentido estratégico. Sintra mudou. As expectativas da população mudaram. Surgiram novos problemas e acentuaram-se insatisfações que o PS não conseguiu responder de forma convincente. Este é o momento para olhar para dentro e entender por que razão a relação com o eleitorado se fragilizou e como pode ser reconstruída.

É importante sublinhar um paradoxo. Um partido que governou durante 12 anos acumulou experiência, quadros competentes e conhecimento profundo do território. Teoricamente, este património deveria facilitar a leitura do momento em que a maré política se altera. Porém, a história mostra que a experiência pode criar uma narrativa interna que se sobrepõe aos factos. A derrota, quando chega, devolve os factos com clareza e, por vezes, com dureza.

A questão essencial não é apenas compreender o que correu mal no passado. A questão é perceber se o PS quer e consegue interpretar o presente para disputar o futuro. O eleitorado foi claro. Cabe agora ao partido saber escutar essa mensagem sem filtros, sem autodefesa e sem o conforto das explicações fáceis.

A mudança de ciclo em Sintra não é um drama. É uma oportunidade de recomeço. Mas esse recomeço só se tornará possível quando o PS aceitar que o tempo mudou e que os padrões de leitura da realidade política já não são os de ontem. Enquanto essa aceitação não se concretizar, haverá sempre a sensação de que o partido permanece preso a um passado que deixou de existir. E essa sensação de negação tornar-se-á cada vez mais visível a cada reunião de Câmara.

O precedente de 2001 deveria servir de alerta. O futuro ainda pode ser diferente. Para isso, o PS precisa de reencontrar lucidez estratégica, disciplina interna e humildade democrática. Só depois de assumir verdadeiramente que o ciclo anterior terminou poderá voltar a ser alternativa. E só nesse momento deixará de estar em estado de negação.