Há dias que marcam um fim e, simultaneamente, anunciam um recomeço.

O 12 de outubro de 2025, em Sintra, foi um desses dias. Mas também o será o dia 3 de novembro, a primeira segunda-feira em que Marco Almeida entrará nos Paços do Concelho como presidente da Câmara Municipal de Sintra.

Vinte e quatro anos depois de ter entrado na autarquia como vice-presidente de Fernando Seara, Marco Almeida alcançou finalmente o lugar que parecia fadado a nunca ser seu. Chega ao poder não por acaso, mas pela persistência, essa qualidade rara que o tempo testa, mas que só alguns transformam em destino.

O percurso é conhecido. Entre 2001 e 2013 foi o número dois de Fernando Seara, no período que encerrou o ciclo de Edite Estrela. Depois, em 2013, rompe com o PSD e apresenta-se aos sintrenses com o seu próprio movimento, Sintrenses com Marco Almeida. Perde por apenas 1.738 votos, numa das eleições mais disputadas da história do concelho. Quatro anos depois, tenta novamente e sofre uma derrota pesada frente a Basílio Horta, que consolidava o início de um ciclo socialista de 12 anos.

A leitura, então, parecia definitiva: o tempo político de Marco Almeida teria terminado.

Mas a política, como a vida, raramente se deixa aprisionar em certezas. Há nela um elemento que desarruma a lógica e devolve o inesperado. A vontade humana.

Durante 2024 começaram a ouvir-se rumores. Um reencontro com o PSD, uma reaproximação, um reenquadramento político. Parecia impossível que regressasse com força, mas regressou. Mudado, sereno, mais contido e, paradoxalmente, mais inteiro.
Há quem diga que somos sempre a mesma pessoa ao longo da vida; o tempo apenas revela versões diferentes de nós. Talvez seja isso. Marco Almeida é hoje o mesmo homem, mas com outra forma de olhar o mundo e de se olhar a si próprio.

Quem observa o resultado de 2025 percebe que Sintra respondeu a esse tempo que passou.

A coligação Sempre com os Sintrenses (PSD/IL/PAN) venceu em todos os órgãos autárquicos em números absolutos de votos – Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleias de Freguesia -, mas foi precisamente na eleição para a Câmara que obteve o seu melhor resultado. Na Assembleia Municipal registou menos 3.093 votos e nas freguesias menos 2.387, comparativamente à eleição para a Câmara. Essa diferença revela que foi na escolha direta do presidente, Marco Almeida, que os sintrenses colocaram a sua confiança mais clara, tendo alcançado mais 3.551 votos do que o PS.
Mais de 162 mil sintrenses foram às urnas, o número mais elevado em 24 anos, o que traduz uma mobilização eleitoral excecional. O segundo ato eleitoral que registou maior participação popular em eleições autárquicas em Sintra foi em 2009, ainda durante o mandato de Fernando Seara, quando se atingiram 137.699 votantes.

E, ironicamente, a vitória foi conquistada por um rosto que Sintra conhece há quase um quarto de século.
A coerência foi, afinal, a chave.

O lema Sintrenses com Marco Almeida, que surgiu em 2013, manteve-se praticamente intacto. Sobreviveu ao afastamento do partido, às derrotas e à passagem do tempo. Tornou-se a marca de uma relação direta entre pessoa e território, entre líder e comunidade. Num tempo em que os partidos se desfiguram e a política se torna ruído, Marco Almeida construiu um vínculo pessoal, uma fidelidade rara entre um homem e a terra que o viu nascer politicamente.
Mas esse vínculo não surge agora. Pode ter passado despercebido, mas esteve presente durante estes doze anos e foi iniciado no ciclo político em que Marco Almeida foi vice-presidente. Foi aí que começou a desenhar a vitória agora alcançada.

Em Sintra, Marco Almeida ignorou o barulho, resistiu ao cansaço e esperou o seu momento. Chegou com a serenidade de quem não precisa de provar nada, apenas de fazer.

Há, portanto, algo de extraordinário nesta vitória. Não apenas pelo desfecho, mas pelo que simboliza: a ideia de que a política ainda pode ser um lugar de sentido, de proximidade e de coerência.

Sintra mostrou que a democracia pode premiar a persistência e a integridade, valores que, num tempo de desconfiança, parecem quase subversivos.

O primeiro dia do resto da vida de Marco Almeida é também, talvez, o primeiro dia do resto da vida política de Sintra.
Mas pode ser igualmente o último capítulo de uma forma de estar na política: uma política feita de raízes, de relação pessoal e de confiança construída ao longo do tempo. Se falhar, não falhará apenas um homem. Falhará a ideia de que a democracia ainda pode ser um espaço de autenticidade, de proximidade e de compromisso com o bem comum.
E o que vier depois disso, o que ocupar esse vazio, dificilmente será melhor.

É importante ter consciência de que a democracia, tal como a conhecemos, suspirou de alívio com o facto de o Chega não ter, afinal, conquistado o segundo maior município de Portugal.

Por agora, Sintra inicia um novo ciclo.
Um tempo de recomeço e de esperança.
Um tempo que pertence a todos.