Jorge Tavares | Incêndio na Serra de Sintra

    Opinião

    Em Portugal parece que é obrigatório que tudo corra mal, mesmo quando corre bem. O incêndio que deflagrou na Serra de Sintra, no passado sábado, tinha tudo para correr mal.

    Rajadas de vento de 100 quilómetros por hora, a impossibilidade de utilizar meios aéreos, as características do terreno e o tempo seco dos últimos meses, eram os fatores de risco para um cenário de pesadelo na zona. A ideia que a orientação do vento afastava o perigo da serra de Sintra não podia ser mais falsa.

    O ex-vereador da Câmara Municipal de Sintra, Paulo Veríssimo, foi o primeiro alerta para isso mesmo: “Não é prudente, com este vento, dar o fogo como controlado. Se entrar pela Malveira, rapidamente entra pela serra acima. A zona da Pedra Amarela é uma ‘bomba relógio’”, escrevia o ex-autarca às 3h51 da madrugada de domingo nas redes sociais.

    Essa mesma preocupação esteve presente durante toda a madrugada de domingo junto dos operacionais que combatiam o incêndio. Parte do dispositivo de Sintra, que garantia a segurança da serra na zona da Peninha, necessitou mesmo de assegurar que o fogo não regressava à serra. As projeções do incêndio eram também uma permanente preocupação.

    (…) “Profissionalismo de todos os agentes de autoridade. Evacuações feitas a tempo, proteção das pessoas e habitações e contenção do fogo, só possível devido à limpeza e prevenção que existiu nos últimos meses”

    Também em Cascais a operação de combate ao fogo não podia ter sido realizada de melhor forma. No primeiro momento os bombeiros tentaram conter as chamas na estrada por baixo do declive da Peninha. As rajadas de vento tornaram esta missão impossível. Depois encontrou em ação o profissionalismo de todos os agentes de autoridade. Evacuações feitas a tempo, proteção das pessoas e habitações e contenção do fogo, só possível devido à limpeza e prevenção que existiu nos últimos meses.

    “As ações que a Câmara Municipal de Sintra e Cascais têm vindo a devolver, foram fundamentais na prevenção estrutural, com áreas limpas e com a gestão de combustível que tinha de ser feita” e criaram, em algumas zonas, “janelas de oportunidade para debelar o incêndio”, afirmava o comandante distrital de Lisboa, André Fernandes, sobre o fogo que teve de enfrentar nesse sábado e domingo.

    A prevenção funcionou e o combate ao incêndio não podia ter sido melhor, salvaguardando as pessoas e os bens.

    Tivemos no passado momentos em que tudo correu mal, em que existiram falhas claras com consequências dramáticas. Foi necessário nessa altura fazer uma profunda reflexão e debate para depois corrigir e levar a cabo as mudanças.

    O incêndio que deflagrou no sábado não entra para a categoria dos grandes incêndios também devido ao papel do Comandante de Operações em Permanência na Serra de Sintra. É uma responsabilidade pouco conhecida, até porque foi criada este ano, mas reagiu de imediato. Funcionou. Teve capacidade de resposta. Em apenas 7 minutos, depois do primeiro alerta do fogo, estava no local a organizar e a traçar uma estratégia de combate às chamas.

    Foi importante a criação do “comandante de serra”, um dos elementos de comando das corporações de Bombeiros Voluntários de Almoçageme, Colares, Sintra ou de São Pedro de Sintra, porque está sempre de prevenção de forma a chegar rapidamente, assim que há o primeiro alerta. O tempo de resposta faz a diferença.

    Perante tudo isto, não será importante que, quando o sistema de proteção civil funciona e a prevenção resulta, não limitar e reduzir o debate a tricas e polémicas inconsequentes? Este é o momento de dizer que em Sintra e em Cascais o Estado cumpriu a sua obrigação de forma profissional.

    Tudo o resto é a espuma dos dias.

     

    Jorge Tavares, diretor