Prevenção e combate ao incêndio de sábado salvou serra de Sintra

Todos cumpriram a sua missão, a prevenção funcionou, e o país respirou de alívio 12 horas depois do início do incêndio em plena Serra de Sintra

Incêndio na Serra de Sintra | DR Bombeiros Voluntário de Sintra - arquivo

O incêndio que nas primeiras horas da noite de sábado deflagrou em plena serra de Sintra, junto do Santuário da Peninha, originou muita preocupação e apreensão nos principais responsáveis políticos de Portugal e nas autoridades de proteção civil. Rajadas de vento de 100 Km por hora, a impossibilidade de utilizar meios aéreos, as características do terreno e o tempo seco dos últimos meses, faziam prever o pior.

Os incêndios do ano passado e o “grande fogo da serra de Sintra” de 6 de setembro de 1966, voltaram à memoria de muitos. Nesse incêndio na década de 60, 25 militares do Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa de Queluz (RAAF) morreram quando tentavam combater as chamas na zona classificada pela UNESCO com Paisagem Cultural da Humanidade em 1995.

O Presidente da República regressava de Viseu e sobrevoava a região de Lisboa no momento em que o incêndio teve início. O fogo era visível do ar e Marcelo Rebelo de Sousa decidiu nesse momento deslocar-se aos Paços do Concelho de Sintra, longe do posto de comando, para acompanhar o evoluir da situação. Também António Costa entrou em contacto com o presidente da autarquia sintrense, Basílio Horta. O primeiro-ministro, munícipe em Sintra, acompanhou desde o primeiro momento o evoluir do fogo que mobilizou nas primeiras duas horas mais de 400 homens.

Incêndio na Serra de Sintra | DR Lusa

Combatido por 753 operacionais, apoiados por 223 veículos, 4 máquinas de rasto e, nas primeiras horas do dia, 7 meios aéreos, o incêndio foi dado como dominado 12 horas depois do seu início.

Durante 12 horas o incêndio consumiu cerca de 600 hectares, 4,1% do Parque Natural Sintra-Cascais com uma dimensão de 14 mil e 583 hectares de área, 300 pessoas foram retiradas do parque de campismo de Cascais e 47 de várias localidades, 21 pessoas ficaram feridas sem gravidade, das quais dez eram bombeiros.

“É tranquilizador ver, para um fogo com aquela velocidade, com as condições muito desfavoráveis, como a resposta superou todas as expectativas. E isso deve ser sublinhado e elogiado hoje”, enalteceu no domingo Marcelo Rebelo.

“Pude verificar a forma como autarcas, populações, incluindo até muitos estrangeiros, e sobretudo os operacionais, foram excecionais, em tudo. Na capacidade de resposta, os operacionais e as autarquias, e as populações e turistas, no civismo com que aceitaram e efetuaram a evacuação de casas ou, por exemplo, do parque de campismo, em tempo verdadeiramente recorde”, destacou o presidente da República.

Também o primeiro-ministro, António Costa, sublinhou que o incêndio que durou “várias horas e com um vento de grande intensidade foi uma ameaça efetiva às habitações e à segurança das pessoas” e congratulou-se por ter sido travado “com sucesso”.

André Fernandes, o principal responsável operacional no terreno na noite de sábado, foi claro no retrato que fez do fogo: “Estamos a falar de um incêndio que deflagrou durante o período nocturno, onde a visibilidade que não é a melhor para as operações de combate”, numa “área com declive acentuado, com área florestal e mato e com ventos de cerca de 100 km por hora. Isto originou um incêndio com uma progressão exponencial, dominado pelo vento, muito corrido e de uma forma linear o que dificultou as operações de combate”.

Nas declarações à RTP o comandante distrital de Lisboa defendeu que, a correta organização e estratégia inicial dos bombeiros, e o aumento progressivo de meios no terreno, foram fundamentais para o sucesso do combate.

Sobre a prevenção o responsável também foi claro: “As ações que a Câmara Municipal de Sintra e Cascais têm vindo a devolver foram fundamentais na prevenção estrutural, com projetos a decorrer, com áreas limpas e com a gestão de combustível que tinha de ser feita”, sublinhou o comandante distrital de Lisboa.

André Fernandes considera mesmo que, foram essas medidas que criaram em algumas zonas “janelas de oportunidade para debelar o incêndio”.

O dia 6 de outubro podia ter ficado marcado para sempre na memória colectiva de Sintra e de Portugal, mas nesse sábado todos cumpriram a sua missão, a prevenção funcionou, e o país respirou de alívio 12 horas depois do início do incêndio em plena Serra de Sintra.

 

EM SINTRA A SERRA TEM DOIS PILARES DE ATUAÇÃO: PREVENÇÃO E CAPACIDADE DE REAÇÃO

Trabalhos de reflorestação da Serra de Sintra com plantas autóctone

O município de Sintra tornou a Serra de Sintra uma das prioridades nos últimos anos. A prevenção é a grande aposta, segundo o autarquia.

Desde 2013 a câmara municipal desenvolve medidas de prevenção no que diz respeito à Serra de Sintra inserida em parque natural e, declarada Paisagem Cultural Património da Humanidade pela Unesco. Uma das políticas mais importantes do município de Sintra, em parceria com os Parques de Sintra Monte da Lua, foi o desenvolvimento de estratégias preventivas contra incêndios no sentido de garantir a preservação da floresta.

Em 2017 é criada a equipa de Sapadores Florestais de Sintra que nesse ano participa em 19 ocorrências de fogos florestais, das quais 10 foram em plena Serra de Sintra. Já este ano o município cria mais uma equipa de sapadores, duplicando assim a capacidade operacional e de prevenção.

O trabalho desta equipa foi fundamental durante 2017, ano particular dramático no que diz respeito aos incêndios florestais. No entanto as funções destas equipas, não se limitam à época de fogos.

Equipa de Sapadores Florestais na Serra de Sintra | Foto: DR CMS

Os Sapadores Florestais efectuaram as denominadas faixas de gestão de combustível, tendo assim um papel ativo nas medidas de prevenção antes da época dos incêndios. Os sapadores desenvolvem e promovem acções de limpeza e preparação de áreas para a sensibilização com as associações ambientais e grupos de voluntariado.

A Câmara Municipal de Sintra também tem tido particular cuidado com a reparação e conservação dos acessos à Serra. Em 2018 o município desenvolveu um protocolo de colaboração com a Parques de Sintra Monte da Lua para a gestão e repavimentação da Estrada Florestal, cerca de 7 Km, no perímetro florestal da Serra de Sintra. Para além deste protocolo, a autarquia estabeleceu, para a gestão com as Infra-estruturas de Portugal e Parques de Sintra Monte da Lua, faixas de gestão de combustível nas estradas nacionais que atravessam e ladeiam a Serra de Sintra.

Sintra procedeu ainda à reparação dos principais caminhos florestais na Serra de Sintra

Sintra procedeu ainda à reparação dos principais caminhos florestais na Serra de Sintra, nomeadamente a reparação de caminhos florestais, que constituem os principais acessos em situação de emergência, e de caminhos de rotas de vigilância com mais de 30 km.

A colaboração entre a Câmara Municipal de Sintra e a Parques de Sintra Monte da Lua assume particular importância devido à gestão de 642,350 hectares que a empresa de capitais públicos assume na Serra de Sintra. O destaque vai para as manchas florestais intervencionadas em 2017, mais de 55 hectares. Já este ano foi realizado o controlo de vegetação espontânea em 182 hectares.

Os militares em Sintra estão também envolvidos o esforço de prevenção e combate aos incêndios. No início deste ano, a Câmara Municipal assinou um protocolo de colaboração com o Exército Português, através do RAAA1 de Queluz e do Regimento de Comandos, e a Parques de Sintra – Monte da Lua, para reforçar a vigilância da Serra de Sintra.

Com esta medida a autarquia aumentou a vigilância da Serra de Sintra, através de acções de prevenção contra incêndios e defesa da floresta. A este protocolo acresce o importante papel que os militares assumem na limpeza e garantia de acessibilidade às minas de água na Serra de Sintra. Também esta ação de prevenção resulta de um protocolo com a autarquia sintrense.

Das nove cooperações de bombeiros do concelho de Sintra, quatro assumem a protecção e vigilância da Serra durante o período mais crítico. Só este ano, a Câmara de Sintra investiu mais de 1 milhão e 700 mil euros para apoio às associações humanitárias de bombeiros e meio milhão de euros para apoiar o Grupo de Intervenção Permanente (GIP).

A manutenção para além do período crítico e a melhoria dos três postos de vigia florestal, em articulação com o patrulhamento da Serra por parte de militares 24 horas por dia, é outras das importantes medidas que estão implementadas no terreno.

 

Foto de capa: DR Bombeiros Voluntário de Sintra