Luís Miguel Baptista | Portugal está de luto

O incêndio de Pedrógão Grande e algumas inevitáveis reflexões

Debelado o incêndio de Pedrógão Grande – conforme se deseja com a máxima brevidade – e depois de prestada a devida homenagem às vítimas mortais, é importante que seja feita, definitivamente, uma séria e profunda reflexão.

Mais do que nunca, os poderes instituídos e a sociedade civil devem mobilizar-se e agir, observando as gravíssimas consequências daquele que é o maior acidente do género ocorrido, até hoje, em Portugal.

Os Bombeiros, em particular, e o país, em geral, não podem continuar, ano após ano, a estar expostos à violência dolorosa que representa o flagelo dos incêndios florestais.

É indispensável passar das palavras aos actos, encarando este cíclico problema com perspectiva sistémica e multidisciplinar em termos de ordenamento do espaço florestal. É indispensável que não se adormeça sobre as estatísticas apuradas anualmente. É indispensável que a acção não se esgote no justíssimo louvor ao extenuante trabalho dos Bombeiros Portugueses e dos demais agentes de protecção civil implicados nas operações de combate às chamas. É indispensável ter a noção exacta de que os incêndios florestais não são (nunca foram) um problema dos Bombeiros. Os Bombeiros Portugueses estiveram sempre a jusante de uma realidade que, lamentavelmente, não vem conhecendo consequentes soluções ao nível da vertente que mais importa ver incrementada: a prevenção.

A discussão em torno da relação causa-efeito está na ordem do dia e, como vem sendo hábito, desde há vários anos a esta parte, gera inevitável debate, normalmente, estéril, potenciador de excessos de protagonismo que tendem a desviar a atenção do essencial, centrando-se no acessório e revelando-se, por isso mesmo, sempre inconclusivo.

Somos daqueles que comungam do ponto de vista, por demais defendido, desde tempos já distantes, que a problemática dos incêndios florestais, bem como a solução para esta, não reside na operacionalidade dos Bombeiros. Trata-se, antes, e sobretudo, de uma consequência do abandono em que se encontra convertida a floresta portuguesa, por responsabilidade de sucessivos governos que tendem a desinvestir no ordenamento e, assim, na efectiva prevenção.

Contudo, tal realidade não poderá servir de justificação para um eventual adormecimento dos vários agentes de protecção civil intervenientes no combate, demitindo-se de fazer uma análise rigorosa em torno do comportamento do dispositivo implementado. Haverá, porventura, aspectos mais e menos positivos a registar, devendo estes últimos, caso venham a confirmar-se, ser assumidos e interiorizados como imperativo de acção para melhoria do sistema. Ou seja, tudo deverá ser discutível.

Os Bombeiros Portugueses são, comparativamente com os de outros países, dos mais bem identificados e experientes no combate aos incêndios florestais, o que, só por si, deverá constituir matéria de incentivo em torno do permanente investimento na sua valorização técnico-operacional. De resto, contra factos não há argumentos e a história assim o comprova. Em complemento, e para memória futura, diga-se que os Bombeiros Portugueses, além de levarem até à exaustão o seu empenho no combate aos incêndios florestais, comprometendo a própria vida, configuram, sem dúvida, porque são e sabem ser responsáveis, a entidade que, entre nós, mais tem pugnado pela defesa da floresta, lançando sucessivos alertas, afirmando e demonstrando, vezes sem conta, com sustentação, que os incêndios não se combatem, evitam-se.

Note-se que a primeira grande reflexão acerca do impacto dos incêndios florestais e das suas devastadoras consequências, a cargo dos próprios Bombeiros, sintomática de uma concepção responsável e moderna, susceptível de ser ainda considerada actual em muitos dos seus princípios basilares, reporta-se ao ano de 1968, pese embora naquele tempo o número e os efeitos das ignições não assumissem as proporções hoje verificadas, à excepção do grande incêndio na serra de Sintra, deflagrado entre 6 e 12 de Setembro de 1966, onde, recorde-se, morreram, por inexperiência, 25 militares do então Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa de Queluz.

Na ocasião, dedicaram-se ao estudo da situação, considerando aspectos organizativos aos níveis da prevenção e do combate, o qual veio a ser convertido em tese apresentada no XVIII Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, dois prestigiados e visionários comandantes: Mário Ferreira Lage, dos Bombeiros Voluntários de S. Pedro de Sintra, e João Maria de Magalhães Ferraz, dos Bombeiros Voluntários de Algueirão-Mem Martins.

Intitulada “Defesa contra incêndios nos bosques, parques florestais, matos e matas”, a referida tese subordinou-se a uma visão integrada, defendendo a necessidade da realização de um trabalho a montante.

A propósito, oferece-nos destacar uma das conclusões ao tempo apresentadas: “Que o mais breve possível a Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas organize os serviços de tal forma que permita a abertura de acessos aos locais mais difíceis das serras, matas e florestas existentes no País”.

As palavras acima transcritas têm, pois, cerca de 50 anos e apontam para uma fragilidade, que persiste: a falta de prevenção (musculada). Neste longo espaço de tempo, inquestionavelmente, muita coisa mudou. Porém, é de lamentar o facto de continuar a fazer todo o sentido a preocupação evidenciada pelos comandantes Mário Ferreira Lage e João Maria de Magalhães Ferraz, o que nos leva, duramente, a tirar a seguinte ilação:

Apesar do esforço colocado na implementação de algumas medidas políticas, o Estado, ao nível dos respectivos decisores, não progrediu em suficiência na sua consciencialização e muito menos tem sabido agir com total humildade, ouvindo os sucessivos alertas de quem sabe. E o país tem muitos conhecedores da matéria, nomeadamente, uma comunidade científica de reputada qualidade e prestígio. Este é um problema que não deve conhecer regimes de coutada. Todos, mas mesmo todos, em nome do interesse nacional, não são demais e têm uma palavra a dizer na definição de novos paradigmas respeitantes à segurança no ambiente florestal.

Diz a campanha governamental que “Portugal sem fogos depende de todos”, logo, impõe-se que o Estado possa ser também apontado como conseguido exemplo!

Luís Miguel Baptista
Ex-Presidente da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém
Presidente da REVIVER MAIS – Associação dos Operacionais e Dirigentes dos Bombeiros Portugueses, IPSS

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