Rui Oliveira | O Islamismo

NOTA DE REDAÇÃO: Num tempo em que o Concelho de Sintra tem cada vez mais a uma população heterogénea, nomeadamente ligadas ao Islão / Islamismo, importa conhecer e descobrir do ponto de vista cultural, os nossos vizinhos.

O Islamismo é hoje uma das mais pujantes religiões do globo. Com o qual a Nação Portuguesa, desde muito cedo, isto é desde a sua Fundação e, depois, na expansão marítima, manteve contacto constante em pleno em várias vertentes, como sejam, a militar, a económica e de hegemonia populacional, quer no território primordial, ou seja o Continente Europeu, concretamente na Península Ibérica; quer em suas seculares colónias de Moçambique, Guiné-Bissau e nos antigos Estados da India.

Desta antiga realidade sociocultural, no primeiro caso quase milenar, nos restantes mais de quatro séculos, nos ficou marcas indestrutíveis, no nosso quotidiano que, por si só, justificam a necessidade de lhes dedicarmos algumas páginas de fugidia síntese.

A terra e o Homem – a Arábia e Mafoma

Peninsula arábica

A Arábia divide-se, desde a remota antiguidade em duas partes principais, denominadas de Arábia Pétrea e Arábia Feliz. A primeira situava-se ao Norte e a segunda ao Sul, mas as suas “fronteiras” eram muito difusas ou inexistentes. As regiões cobertas pelo deserto, embora distanciadas entre si, eram vulgarmente “arrumadas” como Arábia Desértica; pelo contrário, as regiões onde a agricultura vicejava eram conhecidas por Arábia Feliz. Entre estas duas havia o Hejaz e o Iémene [na actualidade incluídas na Arábia Saudita], que, sendo ribeirinhas do Mar Vermelho, se consideravam as principais de toda a região arábica. O Islamismo desenvolveu-se na primeira destas regiões, no Hejaz, território onde duas cidades disputavam a primazia: Meca e Iátribe, correntemente conhecida por Medina, localizada a 400 km de Meca.

Os habitantes dedicavam-se à pastorícia e ao comércio, os pastores eram, naturalmente nómadas. Meca vivia do turismo religioso e dos lucros das caravanas que por ela passavam a Caminho do Iémene, da Síria e da Mesoptâmia. A Iátribe dependia quase exclusivamente da Agricultura. Numa e noutra cidade se praticava a idolatria. Medina [Iátribe], apesar disso, mais em contacto com a Síria e a Palestina, etc., ressentia-se de influências cristãs e judias. Em Meca existia inúmeros ídolos, mas o templo que lhe dava universal nomeada era o da Caaba. Consiste este em uma pedra ovalada, de cor escura, vinda do “Paraíso”, segundo reza a tradição. O templo era, ainda é, o centro de peregrinações, que para ele convergem desde sempre, os povos de toda a Arábia, mas também das regiões vizinhas. Havia uma tribo a dos Coraixitas que eram dominantes na cidade de Meca, durante o surgimento do islamismo. Era a tribo à qual pertencia a linhagem de Maomé, mas foi a primeira a liderar uma oposição à sua mensagem. Também são chamados de Quraish ou Qurays, cujo dever era servir e guardar o templo desta Caaba.

A Caaba, o lugar mais sagrado do ISLAM

Foi aqui, na cidade de Meca, cidade idolátrica e movimentada, que nasceu Mafoma [o Fundador do islamismo é, entre nós portugueses, conhecido, por: Mafamede, Mafoma e Maomet], em 570 ou 580. Filho póstumo, segundo parece, perdeu a mãe aos 6 anos de idade.

O seu segundo tutor foi seu tio paterno, Abu-Talebe, abastado comerciante e proprietário de várias caravanas. O jovem Maomet teve, assim, oportunidade de conhecer melhor toda a Arábia e até a Síria. Como condutor de camelos, entrou para o serviço de uma rica viúva, Kadija, com quem se casou, apesar de ela ser muito mais velha que ele.

Sofria Mafoma, desde a infância, de alucinações e de ataques epiléticos, acompanhados de transes e de visões. Kadija, longe de o contrariar neste sentido, auxiliou-o sempre e, acreditando ou fingindo acreditar no que ele dizia a respeito do seu futuro, foi a sua melhor auxiliar nessa crítica fase da sua vida.

A famosa mão de Fatima, o símbolo dos cinco pilares do ISLAM

Dos seus contactos com Judeus e Cristãos, uma ideia havia colhido que o perseguia continuamente: a unidade de Deus. O Antigo Testamento condenava a idolatria claramente. Os Cristãos, lendo os Evangelhos e as epístolas dos Apóstolos, não eram menos unânimes nessa condenação. Os Árabes, apesar de mergulhados em práticas idolátricas, não haviam esquecido o monoteísmo primitivo, por exemplo do deus Amon, Alá ou Ilá, reminiscências manifesta do Hohim dos Hebreus. Foi então que Mafoma concebeu a ideia de combater a idolatria por todos os meios ao seu alcance. Kadija, sua esposa, secundou-o planamente. Foi ela a primeira crente. Seguiu-se-lhe Ali, filho de Abu-Talebe seu primo. As novas ideias monoteístas porém, não conseguiram penetrar na massa amorfa de Meca, e Mafoma resolveu procurar o apoio da cidade de Iátribe, ou seja, Medina, com vista a submeter a sua orgulhosa cidade natal. A resposta foi, como era de esperar, a expulsão do Mafoma do seu meio e da sua tribo. Depois de várias tentativas conciliatórias entre Mafoma e a sua tribo e cidade, este tem de fugir precipitadamente da mesma em 19 de Junho de 622. É neste ano que principia da Hégira, ou seja o Calendário Islâmico, que se baseia no ciclo lunar, foi introduzido pela primeira vez no ano 638 d.C. pelo companheiro próximo do Profeta e segundo califa, Umar ibn al-Khattab [592-644 d.C]; que tomou essa decisão, numa tentativa de racionalizar os vários sistemas de datas usados naquela época. Com esta fuga do Profeta para a cidade de Iátribe esta principia então a ser conhecida por Medinet-en-Nebi, isto é: cidade do Profeta. A guerra entre as duas cidades teve algumas alternativas de paz mas a doze de janeiro de 630, Mafoma entrou triunfante em Meca, queimando todos os ídolos que encontrou respeitando apenas a Caaba que transformou em templo do único Deus.

Em 632 o Profeta morre, deixando apenas como descendente directo, a sua filha Fátima. Uma vez que não fez testamento, a sua sucessão como “chefe dos crentes” deu origem a lutas internas na família, lutas essas que estão na base das heresias de Islam [que quer dizer: submissão a Deus].

Os princípios Dogmáticos ou seja: sentenciosos

O antigo reino do Hijaz

Os dogmas do Islamismo, propostos não pelo Al Corão, mas pelos teólogos são poucos: Fé em Deus uno, a existência de Anjos, Fé nos Livros Sagrados; nos Profetas; na Ressurreição, Juízo Final, predestinação; Inferno e Paraíso. A reter: no Islam, porque é uma religião essencialmente simplista os Mandamentos ou pilares são cinco:
• Profissão de Fé
• Oração
• Esmola
• Jejum
• Peregrinação a Meca

A Profissão Fé. Confere aos Muçulmanos um certo complexo de superioridade. Gostam de se afirmar como «Crentes», considerando os não crentes como infiéis que para os crentes tem um estatuto quase sub-humano. Colocam a Fé acima das Ciências.

A Oração. É sempre dirigida a Deus, sempre em seu louvor exclusivamente deve ser feita cinco vezes ao dia: manhã, ao meio-dia, à tarde, ao anoitecer e uma hora depois, pouco mais ou menos. Nos meios urbanos onde existe Mesquita, os «crentes» são chamados para a Oração pelos Almuádem ou Muezim que a partir dos minaretes, por meio de frases recitadas melodicamente. A Oração é precedida de certas abluções e tem de ser orientada para Meca.

A Esmola. Julga-se que este preceito tem origem judaica ou cristã. Durante o governo patriarcal do Islamismo, era verdadeiramente esmola, isto é, aconselhada, mas não obrigatória, mem imposta. Depois transformou-se num verdadeiro imposto, podendo comparar-se, mutatis muntandis, aos antigos dízimos prescritos pela Igreja e obras pias.

O Jejum. A princípio, Maomet instituíra um dia apenas de jejum. Depois, o nono mês, de Ramadão, foi dedicado a esta prática penitencial, em virtude de ter sido neste mês em que o Corão fora revelado. O preceito obriga de Sol a Sol, ou, melhor de luz a luz. Principia a vigorar quando se distingue, de manhã um fio branco e outro negro, e termina quando tal facto se não dá, com o cair da Noite.

Obriga todos os muçulmanos válidos. Requer-se também a intenção de se cumprir o preceito, renovada todos os dias. O Corão admite dispensa de jejum quando se alimenta um pobre, mas aconselha-o, mesmo nesta circunstância.

Peregrinação a Meca. Em Meca se conserva os restos mortais do Profeta, pois foi a sua cidade natal. Mas não é este o motivo que atrai os Muçulmanos; mas sim o facto de tal peregrinação constituir um verdadeiro mandamento, destinado àqueles que se encontram em condições de o cumprir. Na realidade, porém, a maior parte dos Muçulmanos não têm possibilidades de realizar esta peregrinação. Este mandamento ou preceito foi conservado por Maomet a partir da prática ancestral dos Beduínos.

Estrutura Funcional do Islamismo

O Islamismo não é uma Igreja, pois não tem clero nem jerarquia isto é: não tem escalonamento de poderes em cadeia. Tem, porém, igrejas ou mesquitas, que variam de riqueza e de sumptuosidade, conforme os casos. O grande laço a unir os «crentes» é a sua Fé. Não existe classe sacerdotal nem liturgia propriamente dita.

Apesar disso, há certas pessoas que, embora laicas, gozam de determinados privilégios na orientação da Uma, ou comunidade islâmica, são elas:
• Xerifes, ou descendentes da família do Profeta, muitos dos quais fundaram dinastias impondo-se, ainda hoje, pelo seu prestígio, gozando de especial reputação de santidade.
• Ulemas, ou teólogos, professores de universidades, especializados na interpretação do Corão.
• Mufti, Uema oficialmente investido de funções que lhe permitem dar consultas escritas sobre questões de direito Corânico.
• Cadi, ou magistrado.
• Iman, ou director da oração e encarregado de, às sextas-feiras, fazer a Kotba, ou o sermão.
• Muezim, com a função de convidar os fiéis à oração. Depois existem outros servidores de categoria inferior e não específicas.

Duas palavras a respeito da mística Muçulmana, ou Islâmica. Durante os primeiros decénios da sua vida, o islamismo, ocupado em guerras e conquistas, não se inclinou para a mística. No século VIII, porém, produz-se o movimento que se deu o nome de Sufismo. Chamavam-se de Sufis os primeiros anacoretas, por se vestirem de lã [suf]. Os paralelos entre os anacoretas cristãos e Sufistas é por demais evidente.

Tal como os «santos do deserto» do cristianismo, também os anacoretas muçulmanos atraíram discípulos, constituindo-se assim em confrarias. Foram estas que levaram o Islamismo ao Sudão, à India etc.. É curioso notar como este sufismo no Norte de África com a designação de Marabutismo, concorreu para introduzir no Islamismo uma espécie de Culto aos santos apesar de negado por Maomet.

Existem muitas confrarias em todo o mundo islâmico, umas inclinadas para a ortodoxia Corânica e outras para a adaptação pura e simples de costumes e superstições locais. Pelo que no islamismo existem várias heresias ou tentativas de se afastarem da Lei Corânica. Eis as Principais:
• Carajismo, esta seita vem desde o tempo de Ali o genro do Profeta, na base da dissidência, está a luta pelo poder.
• Chiismo, esta seita intitula-se também por fatimidas, porque para eles Ali era o legítimo herdeiro do Profeta. Os Chiitas acreditam na vinda de um Mahi ou senhor da Hora que vai restaurar a pureza do Islamismo. A seita tem grande implantação no Irão e Iraque e vivem em constante pé de guerra com os Sunitas, mais liberais em termos religiosos nomeadamente de quem deve ocupar o Califado.
• Ismaelitas, ou assassinos. Seita radical do ramo dos Chiiitas que aparecem no século IX. Hoje são uma comunidade pacífica controlada pela família Aga Kan que é o chefe espiritual.
• Sunitas, Corrente mais liberal.

Rui Oliveira,
Arqueólogo. Especialista em História Local Sintrense

Bibliografia:
Pellegrin, Arthur; «L´Islam dans le monde», tradução portuguesa do:
Centro de Estudo de Ciências Políticas e Sociais; Junta de investigação do Ultramar, Lisboa, 1961.

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